fevereiro 14, 2006

Como quem mia por mim...

Ver a queda de neve e ver a neve já caída são coisas diferentes. Percebi-o no Domingo passado.

Nesse dia um gato fez uma má escolha. Sentindo frio procurou o quente de um motor de uma carrinha. Ficou entalado algures entre sítios que são obscuros ao meu conhecimento de mecânica automóvel. Ao que percebi entre o eixo, a transmissão e a suspensão. Ficou literalmente pendurado, ensanguentado e entalado no tal sítio, passe a cacofonia. Miados a frente, que é como diz em frente à porta do prédio que alberga a minha casa, os passageiros da tal viatura apercebem-se dos gemidos do dito animal e tratam de retirar a roda e de descobrir a encomenda que era amarela e miava de desespero. Sem demoras chamam os bombeiros, diga-se sapadores. Chegam os cinco bombeiros (ou seriam seis?) na viatura gigante para socorrer a pequena criatura. Macacos hidráulicos em acção, homens em cima da carrinha aliviando a suspensão, o gato a resistir, enfurecido, assanhado e chateado. Vencidos, os bombeiros chamam mais colegas que num jipe trazem o S.L.: uma pequena tenaz que ligada a uns tubos, estes ligados a um gerador, este funcionando por arranque com um fio como os motores dos barcos. Mais um macaco, portanto, mas de todos o mais potente. Homens novamente em cima da carrinha e o comandante com as luvas de bombeiro experiente arranca o pobre animal que se contorce e distorce envolto num mar de dores. Como se de um segundo parto se tratasse o animal salta para a estrada e, rastejando talqualmente um lagarto doido, embate ainda numa jante de uma roda de um carro em andamento lento. E isto provocou um burburinho de espanto na pequena multidão que se juntou na rua tiritando de frio e comentando que por pouco o desorientado gato não tinha sido atropelado.

O gato refugiou-se então debaixo dos carros estacionados do outro lado da rua. O jipe do S.L. foi-se embora com os respectivos bombeiros. Os restantes aguardaram ainda mais uma carrinha de caixa aberta que trazia a rede para apanhar o bicho. Mas o ferido não quis entrar na rede. Nem de livre vontade nem de vontade forçada. Quer tenha sido pela falta de jeito do maçarico que empunhava a rede - o que causou grande risota nos colegas - quer tenha sido pela destreza felina do coxo e rastejante gato, o que é certo é que o animal teimava em não se deixar enredar.

Eis que de súbito, como tudo o que é inesperado e surpreendente, começa a nevar. O espanto não nos distraiu mais do que cinco segundos. Mas foi o suficiente para que o gato-Ninja desaparecesse.

Ninguém me tira da ideia que o São Pedro, tido como o administrador dos estados do tempo, deu uma ajuda ao animal. Se o animal sobreviveu aos ferimentos e ao frio não sei dizer.

Mas que o breve nevão que atingiu Setúbal em 29 de Janeiro de 2006 irá ficar associado para sempre a um gato, disso não me restam muitas dúvidas.

Não puder ser um desses repórteres baratos que com câmaras digitais registam tudo a todo o momento. Os mesmos que inundaram as redacções das televisões com fotos de neve e espanto. Porque só tinha uma descartável à mão, foi mesmo essa que usei para registar algumas recordações do nevão. Como ainda não mandei revelar e nem cedo o vou fazer, aqui ficam apenas os nevões mais antigos e também mais fortes, visto que este nem dois centímetros de manto fez na minha rua. As fotos são do Américo Ribeiro. Sem gatos.