novembro 08, 2004

O Samurai foi aprovado!

Acabei de assistir a uma tese de doutoramento em Ciências Sociais na especialização de Ciência Política, aqui no ISCSP, local onde habitualmente escrevo neste blogue.
Foi a primeira vez que assisti a uma tese de doutoramento.
Um pouco ensonado lá ouvi a apresentação da tese, qualquer coisa acerca da Globalização e crise do Estado Soberano...
A verdade é que à excepção do Dr. Raposo Medeiros, ausente por doença, estava lá a artilharia pesada iscspiana: Maltez e Lara, pois claro, ou não fosse isto uma tese em Ciência Política.
Devo dizer que foi algo complicado de seguir, porque o nível da discussão é muito elevado e depois é difícil entender, ao certo, qual o paradigma, ou melhor quais os paradigmas quais os modelos teóricos que são adeptos o júri. Geralmente, nestas área os paradimas são importantes, são o chão teórico no qual assentam os pilares das teses. É um exercício olímpico, colocamo-nos aos ombros de gigantes para demonstrarmos algo de original. Os paradigmas são conceitos difíceis de entender porque são um conjunto de uma certa complexidade: incluem os métodos, o objecto (aquilo que pode ou não ser estudado) e o modo como as coisas podem ser interpretadas.
A tese em questão foi criticada pela sua extensão: mais de 700 páginas! O arguente da Universidade dos Açores disse em tom jocoso que por pouco a SATA lhe cobrava uma taxa especial pelo peso da obra... e outro elemento do juri realçou que o doutorando ao escrever tanto, repetiu-se e complicou o que era fácil o que é contrário ao espírito científico.
O autor seguiu não só o paradigma weberiano (ou seja a concepção metodológica de Max Weber), como ignorou os procedimentos metodológicos da Casa - o que não é proibido, obviamente! Ao fazê-lo correu um grande risco, mas quem não arrisca...
À parte certos pormenores como a extensão e falta de síntese do trabalho, todos, uns mais que outros, louvaram a "alucinante cavalgada intelectual", o mérito da abordagem, a dedicação, enfim o esforço feito em prol do conhecimento. A dedicação não justifica, por si só a qualidade de um trabalho. Mas não deixou de ser elucidativo o comentário do professor Maltez, ou melhor a interpretação que dele faço. Licenciado pela Lusíada e mestrado pelo ISCSP, o doutorando apresentou-se aqui despojado de "escolas": desempregado, não lecciona, trabalhando com um bolsa, é essencialmente um homem livre, como deve de ser, acrescentando a isto o sempre difícil enfrentar da morte do pai - assim o apresenta o orientador, o ilustre Adelino Maltez. Maltez realça que o doutorando ouve os conselhos do orientador e discute com o mesmo aspectos do trabalho, porque de resto, ou melhor, sem resto, o doutorando é livre de procurar ou seguir um qualquer paradigma para alicerçar o seu trabalho.
Este solitário que dedicou longos meses à sua tese assemelha-se a meu ver a um samurai que vai desbravando caminho com as armas que afiou cuidadosamente... e como acontece nestes casos é uma aventura arriscada.
Um pouco como acontece quase sempre comigo talvez a tese fosse demasiado longa porque o doutorando não teve tempo para a escrever mais curta! Aconteceu que a complexa bonecada powerpointiana foi satisfatoriamente mais sintética do que o trabalho e a defesa do trabalho foi bem sucedida. A falta de delimitação dos Estados que eram estudados foi talvez a principal objecção a juntar à objecção do Professor Sousa Lara acerca da omissão dos estados exíguos como o Kiribati, que não têm soberania e por isso não podem ter crise de soberania - alguns nem sequer têm àgua quanto mais soberania... Mas intui-se quais os Estados excluídos e isso basta.
A inovação das definições de estado-rede e a prospecção corajosa do futuro, numa altura em que qualquer dupla de aviões contra torres pode mudar a conjectura internacional e, consequntemente as conclusões de qualquer tese nesta àrea, valeram-lhe a aprovação por unanimidade. Digo eu. Que ele foi aprovado por unanimidade, lá isso, foi. Agora as razões hão-de figurar por escrito nos arquivos do ISCSP, que isto não são os Prémio Nobel com justificação do prémio.