novembro 08, 2004

O milagre de Kusturica!

kusturica rula!!!

Depois da genial obra-prima "Gato Preto, Gato Branco", Kusturica oferece-nos um invulgar e pitoresco retrato da guerra na Bósnia.
Um Romeu e Julieta? Não sei. Não é bem um amor proibido, não se sente essa tensão, mas é um amor condenado pelos interesses geoestratégicos de meia dúzia de líderes da região à mistura com a NATO e companhia. Com este palavreado todo não será de espantar que o filme seja uma história de amor no meio do caos, uma sátira política com o tipo de humor do "Gato..." a que Kusturica nos habituou, recheada de pormenores de uma prodigiosa imaginação que só um cinema não hollywoodesco pode trazer. Mas atenção é realmente um tipo de humor que se gosta ou não se gosta.
A personagem do engenheiro ferroviário Luka, muito bem interpretada por Slavko Stimac, tem um comportamento divinal, diria mesmo uma paciência de Jó: atura uma mulher lunática e quando as bombas rebentam perto de sua casa continua a viver e a agir com grande optimismo, como se se as telhas arrancadas do telhado pelo impacto das explosões fossem apenas o resultado de um ventinho mais forte.
Não abandona a linha que ajudou a construir porque aquilo, no fim de contas é a sua vida! Viver em plena guerra é um loucura e até uma a burra também rula!!!"burra se recusa a viver com desgostos de amor, esperando que um combóio se digne a trucidá-la sem piedade.

Kusturica mostra que a vida é realmente um milagre, que por muito más que as circunstâncias sejam, basta a companhia de um animal de estimação para suportar as armaguras. Os animais são aliás uma imagem de marca do filme. Há quem veja nele metáforas e coisas do género, mas o certo é que existe uma certa genuinidade, sinceridade e lealdade dos animais: há o fiel cão, o oportunista mas meigo gato, a burra que chora com desgosto da vida, as aves de rapina que devoram os patos, os ursos que ursupam as casas, todos sem excepção desempenham o seu papel terciário, todos são filmados sob a lente satírica de Kusturica, não estão lá por acaso, mas os critícos esqueceram-se deles.
A música(da fantástica No Smoking Orchestra) é divinal, mas como de costume na expressão musical não há explicação lógica para gostarmos da mesma (gosto porque... sim! porque é a síntese sentimentental do filme dá-lhe a tonalidade emcional adequada a drama que é, mas sem esquecer o lado mais alegre, é triste e lenta nuns casos e brevemente alegre noutros) e, infelizmente só há praticamente um tema que, com as suas variações (mais de instrumentação do que outra coisa, se repete e domina o airplay do filme.
Para ver e rever: um dos melhores filmes de 2004 e já um clássico para quem considerar Kusturica um realizador de culto!