novembro 25, 2004

O Código Fertagus!

Este mês ando a exprimentar o Comboio da Ponte. O comboio é rápido e confortável, tem muita luz e pouca trepidação, o que me permite ir a ler. Coisa que não acontecia com os autocarros da TST. Claro que os japoneses riem-se da rapidade e velocidez deste comboio, mas enfim...

É pena é não haver ligação directa da Carris de Campolide ao Polo Universitário da Ajuda...

Nos últimos dias reparei que no piso superior da carruagem que costumo frequentar há sempre uma pessoa (uma diferente quase todos os dias) a ler o best-seller de Dan Brown, o Código da Vinci. Eu chamar-lhe-ia um beast-seller, uma autêntica besta de vendas, ou, como alguém o apelidou, um hamburguer literário: 17 milhões em todo o mundo, 265 mil em Portugal (que assim é o país que representa 1,5% das vendas a nível mundial).

Se pensarmos que cada pessoa pode emprestar o livro a outra pessoa, para não dizer 3 ou 4, no mínimo podemos especular um número de 530 mil leitores em Portugal o que corresponde grosseiramente a 5% da população portuguesa.

Eu próprio também já provei o hamburguer: fui contaminado por esta moda literária. Suspeitando da máquina de marketing que estava por trás, desconfiei, mas como não gastei dinheiro (o sr. Celso Fernandes fez o favor de me emprestar e me contaminar com o livro...), decidi ler para investigar o fenómeno Dan Vinci.

Numa aula de Sociologia de Informação constatou-se que quase metade dos presentes já tinham lido o livro.

E então? Querem saber o que achei? Se ainda estão a ler é porque que querem. Pois. O livro também segue esta lógica do "se querem saber continuem a ler". Uma estratégia viciante e lucrativa. Um policial cheio de mistérios seculares por todo o lado. Escrita simples, não poética, nada de cansar os leitores com "mensagens", dramas, situações sociais deploravéis (para deplorável já basta a vida do leitor, o leitor quer é um escape da realidade, quer sonhar...). Sabedoria de algibeira tretóide num argumento muito bem construído. Parece mesmo um guião de cinema mas mais desenvolvido.

Não sendo um estilo poético e sem recursos estilísticos exigentes, pouco se perde na tradução. Isso faz com que seja um livro de "metro" ou de viagem de avião (mais comum em países grandes como o Brasil ou os Estados Unidos da América). Um sonho de livro para os editores que encontraram aqui uma mina! Só a Gioconda na capa, como ícone internacionalmente reconhecido dá logo vontadde de pegar no livro e folhear. E entre centenas de livros que existem nas livrarias, qualquer marqueteiro concordará que só a "vontade de pegar" já é algo de assinalar positivamente. Uma referência ao livro já dá a resposta "ah! sim, já estive com ele na mão? É aquele que tem a Mona Lisa na capa, não é? Afinal, o que é aquilo?" e pimba do outro lado temos um opinion leader de ocasião, à boa maneira d Tupperware, mas comum diferença, faz publicidade ao livro sem ser pago para isso! Brilhante de as teorias de comunicação se cruzam nesta estratégia de marketing! E a epidemia começa...

O padre franciscano Carreira das Neves classificou-o de "trama romanesca bem urdida" e de ficção de uma fértil imaginação. A fértil imaginação referia-se aos pormenores religiosos em particular. Isto deu-me uma certa vontade de rir. É claro que tenho conhecimento da tretas que o livro contém, e que não serão apenas de nível teológico, embora a mim só me tenha interessado a parte estrutural, a forma. O conteúdo é ficção, porra! O que me dá uma certa vontade de rir é que no Livro há a sensação de que a Igreja enquanto instituição milenar pode ser derribada por segreos há muito escondidos, e por isso até há um bispo que intervém activamente para que os mesmos não sejam descobertos. O facto de, na vida real, ser um PADRE a descortinar e a esclarecer as questões realativas à Teologia desmitificando e desmentindo Dan Brown e que me dá uma barrigada de rir. Até parece que a Igreja está com um medo real, como se um escritor comercial tivesse descoberto acindentalmente o seu segredo. Que absurdo! Os inocentes que acreditam MESMO naquilo como uma jovem de 14 anos que escreve:

Epa eu so tenho 14 anos, mas li este livro e posso dizer que é demais mesmo! Nunca li um livro que me desse tanta emocão! Recomendo a todas as pessoas, mesmo até porque este livro pode ser a verdadeira bomba que precisava de ser lançada...


e outro:

Epa eu tenho 15 anos e tou a ler o livro, e tipo o livro é fantastico!! Têm de ler, principalmente a malta jovem, pois precisam de saber! Brown fizeste ganda work ao criar este book, tá mm lindo!! E está no top 5 dos meus favoritos. LEIAM QUE É FANTASTICO!



vão acreditar que aquilo é verdade, pois e foi preciso vir um padre esclarecer é porque há mesmo conspiração (quem via os Ficheiros Secretos percebe na perfeição o meu raciocínio). Ora se fosse um professor de Teologia, confessamente ateu, que nos fizesse esse esclarecimento era muito mais simples. Agora a um padre é o mesmo que perguntar a um benfiquista se não concorda que o Eusébio foi melhor jogador do que o Matateu. Adivinhem a resposta...

De modo que a opinião de uma conterranea minha é muito apropriado:

Estou a ler o livro porque senti uma certa curiosidade quanto ao romance em si e não relativamente aos factos descritos se são verdadeiros ou não, porque quanto a isso sou muito reticente. Vale a pena ler, pois todos os monumentos descritos tal como os artefactos, são parte da história da cultura humanas. Paris tem locais magníficos que valem a pena ser visitados. Penso que se gerou um grande clima à volta deste livro e aqui não está em causa quem leu ou deixou de o ler. Código Da Vinci não traz nada de novo que não tivesse sido pensado antes...mas de um simples romance fictício aos factos que realmente aconteceram vai uma longa distância e muito há ainda por descobrir. É preciso ter cuidado com certos comentários e especulações em torno desta obra cujo objectivo não é mais do que, nalguns casos, a simples manipulação e lavagem cerebral das mentes mais fracas. (negrito meu).

O certo é que até o padre gostou do romance...

Com o Natal à porta, o Código vai sair a rodos das prateleiras fnaquianas e afins para entrar no sapatinho de muitos portugueses.

O grande marqueteiro Edson Athayde no estilo leve e jocoso da sua Tempestade Cerebral escreve que:

o homem desde que é homem (...) sempre quis ser Deus. (...) Na actual impossibilidade técnica e, principalmente, moral de avançar com o seu projecto de ocupar o lugar do Criador, o homem vai-se divertindo com sucedâneos. Primeiro, inventou a literatura. Tanto o escritor como o leitor são donos da existência das personagens, dái o seu milenar sucesso de mercado.

Edson refere ainda o teatro e o cinema, para chegar ao Tamagotchi, tema do seu texto no capítulo treze. Mas assenta que nem uma luva (depende da luva eu sei, mas deixem-se lá disso agora!) ao Código e a qualquer ficção. Talvez por termos tendência para o fechamento: quando vemos tracejados a formar um círculo, vemos o círculo. Com os livros passa-se o mesmo, se está lá (no livro) um edifício austero sem indicação da côr, imaginamos na nossa mente uma côr austera associada ao edifício (que pode variar de mente para mente e daí nem sempre concordarmos nas adaptações para cinema, mas não será amarelo fosforecente, com toda a certeza).

As longas descrições ou quadros narrativos queirosianos dão rigor mas tiram esse prazer de imaginar essas descrições, de ser dono da existência das personagens e do seu meio envolvente. E se o escritor nos mostra pequenas pontas do véu em todos os instantes nós queremos ver e saber mais da história. Queremos saber porque somos cuscos, curiosos.

Nesse sentido, lembrei-me do prazer sentido nas primeiras leituras, dos livrs infanto-juvenis, os Cinco, Verne, os Sete, Uma Aventura, e por aí a fora! E penso que este Código é um infanto-juvenil escrito para adultos (a este prpósito relembrem-se as opiniões dos jovens de 14 e 15 anos e veja-se as reações de certos adultos que parecem crianças...) com personagens adultas: um simbologista, um criptólogo, um milionário, um chefe de polícia, ..., entre outros.

Na Fertagus vi, no outro dia, o fervor juvenil que a obra pode provocar, aquele prazer, aquele vício, aquela prisão orgásmica que senti nas primeiras leituras (ou como disse certa leitora: "O livro é delicioso e cheio de suspense. Quando se começa a ler só se consegue parar na última página, quase sem fôlego... Óptimo!). Mas eu vi isso tudo numa passageira feratguiana, dizia eu.
O que eu vi foi isto: duas mulheres, uma lia ao Código outra um outro hamburguer literário. A voz mecânica anuncia: "próxima estação: Corroios". A senhora que não lia o Código fechou de imediato o livro e dirigiu-se à porta. A que lia o Código, levantou-se vagarosamente e assim foi a ler até que teve mesmo de fechar o livro senão caia pelas escadas do comboio... ou seja, quem lê o Código lê até não poder mais!
As mais de 250 visitas ao meu blogue parecem não viciar a esse ponto.
Pelo menos ainda não recebi uma advertência da SOCIETAS OPHTALMOLOGICA LUSITANICA a queixar-se das longas horas que os visitantes passam ao êcran a ler as minhas postas...




1 Comments:

Blogger Gui_Be said...

poderia me sentir envergonhada p causa dixo m n..EU NC O LI!e n axo k o vá ler pa dzr vdd.
Assemelho este livro aos harrys potters lol
Inicialmente ng conhecia. dps virou a super moda. KK dia temos crianças mascaradas no halloween ou no carnaval de Leornardos Da vincis...nm kero sabr
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11:59 da manhã  

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